certo dia de 2011, durante conversa com um bom amigo [a quem dedico essas linhas], entre um café e uma lembrança, o cara propôs a existência de dois tipos de pessoas: aquelas que centram os relacionamentos.. nas pessoas, e as que priorizam a relação em si. achei interessantíssimo e resolvi refletir sobre o tema.
desde nosso papo, há mais ou menos um ano, tenho refletido sobre a “relação que as pessoas têm com os relacionamentos”. o perfil racional[izador], tende a ser mais ponderado e equilibrado [pelo menos dentro da relação] e, assim, centra mais facilmente os relacionamentos na própria relação. faz sentido. os que conseguem ter um olhar distanciado da relação e dos sentimentos, sem apego, tendem a sofrer menos os efeitos das diferenças, da rotina e de eventuais desencontros. dessa forma, estariam mais protegidos de relações cuja chance de êxito é sabidamente questionável.
novelas, romances, folclore, turmas de rua, escola, até mesmo a família. tudo e todos contribuem para reforçar e reproduzir o conceito de que é normal, aceitável, e certo orientar as relações românticas, pelo[a] outro[a], por suas expectivas e por suas projeções. e a maioria de nós, conscientemente ou não, acabamos por construir. esse é o segundo tipo de “relação com a relação”. e coisa das mais dificeis é desconstruir a noção de que a felicidade romântica está vinculada a um alguém que pode nunca aparecer – ou corresponder às nossas expectativas. mais uma vez, pode-se recorrer ao tomé: se acreditarmos com fé, a plenitude estará num pedaço de madeira. a lógica é parecida: é muito mais natural [e justo] acreditar que não existe [apenas] um grande amor, mas pode-se esbarrar em uma série de grandes amores ao longo da vida – aproveitar ou vivenciar essas oportunidades é uma outra estória. e cada um desses amores pode contribuir para nossa evolução. é preciso acreditar.. e entregar-se de forma sã. o segredo é ter equilíbrio desmedido com doses equilibradas - e controladas de irresponsabilidade.
talvez caiba aqui um óbvio mas elucidativo aparte. desapego em nada tem a ver com insensibilidade. pelo contrário: quem vive de forma desapegada, consciente de quem é, do que quer dessa vida, tende a saber melhor o caminho a percorrer em direção á felicidade e, por isso, sabe quanto vale doar-se, o que vale a pena trocar com o[a] parceiro[a] – em qualquer nível.
fica mais claro, assim, que não se pode sacrificar, anular, submeter-se a julgos e situações humilhantes em nome do ser amado, independente do gênero. muito bem. o sentimentalmente desapegado é, na maioria das vezes, o elemento mais centrado nas relações. isso não quer dizer que esse perfil não tenha traços de amor, sensibilidade, devoção e paixão. para ele, há, sim, o que se perder numa relação. mas o grande tesouro que se corre o risco de perder é a própria integridade, o próprio equilíbrio.
quando se liberta das relações de dependência que aprendemos a considerar normais desde crianças [na verdade, “normoides” e automatizáveis], consegue-se reconhecer de forma saudável o próprio valor, e o valor do[a] outro[a]. a partir daí fica mas fácil viver na plenitude o arranjo pessoa-relação. a troca fica mais gostosa e a relação romântica, mais plena.
nota de rodapé: [nuca antes na história desse país!!]
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
fênix [ou, paixão passional x paixão racional]
outro dia encontrei um amigo que não via há tempos. em meio às idiotices habituais desse tipo de encontro, o cara vomitou uma teoria, no mínimo, interessante. para ele, há resumidamente dois tipos de variáveis que pautam o desenvolvimento e o equilíbrio das relações: amor e sexo. e o mais louco: elas seriam, em princípio, meio incompatíveis. acho que no mesmo andar, vive a paixão. sobre ela, acabei fazendo outra reflexão: a diferença entre paixão passional e paixão racional.
a paixão passional é a paixão clássica: irracional [burra, por vezes], pulsante, superlativa, vibrante, exagerada, insone, faminta. inspirou ovídio, shelley, yeats, blake, cecília meireles, tom jobim. por esse conceito, apaixonar-se seria o objetivo-mor do ser humano. ela seria confundida, inclusive, com a própria felicidade.
aqueles que não vivem um ciclo passional clássico, marcado por incerteza, abnegação, taquicardia-quase-enfarto, loucura e, claro, doses nem sempre homeopáticas de estupidez, parecem não ter uma vida plena e são entendidos como mais idiossincráticos do que de fato são. para o [in]consciente coletivo, esse tipo de paixão vence o tempo, justifica decisões estúpidas, escolhas assumidamente erradas, comportamentos incompreensíveis, e é – ou tem de ser cruel.
vive-se toda a vida sob intenso bombardeio – da mídia, da família, da escola, da igreja, dos amigos: apaixonar-se faz parte da vida. e sofrer é parte integrante do ciclo passional. ai de quem não se apaixona e deixa de sofrer por isso. parece que os que não circulam pelos corredores escolares de mãos dadas, olhinhos virados, uniforme babado, recebem um precoce e cruel status de párias, outsiders.
são vistos como um bando de coitados os que não se sentem coitados, e não vivem imersos num mundo de angústia, duvidas, súplicas, amores não-correspondidos e [dependendo da época] overdose de velvet underground, nick cave, the smiths, the cure, smashing pumpkins ou os emo-chatos. a paixão passional tem um pouco de tudo isso.
mas não se pode ignorar a importância desse sentimento. sua vivência pode dar, inclusive, a chance de viver o segundo tipo, mais maduro. e, assim, pode ficar mais fácil assassinar velhos conceitos, como a falaciosa dependência do[a] outro[a], a necessidade de adequação às demandas sociais etc.
o que chamo de paixão racional, por sua vez, é um sentimento mais maduro. pode até ser aprendido com as idiotices da paixão passional. porra, claro que doses [monitoradas] de falta de controle, dúvidas, até mesmo burrices também fazem parte dessa categoria, mas em outras bases. sinceramente, não sei se o segredo é a idade, ou, o somatório das vivências acumuladas. talvez seja. mas alguns carregam serenidade na mochila desde pequenos.. que bom. o mundo fica mais justo assim.
os que sentem paixão racional estariam mais protegidos contra o sofrimento. seriam mais serenos e, até mesmo por isso, mais capazes de se entregar de cabeça.. à paixão. note-se a [aparente] contradição.
em princípio, é socialmente inaceitável que alguém esteja apaixonado e cumpra o ciclo de maneira feliz, serena, viva [pulsante, por que não?], e reconheça um eventual fim. eu mesmo tendo a resumir a coisa assim: a paixão acaba [como fogo que arde invisível, parafraseando o santo], ou evolui para um sentimento mais maduro. no caso, amor. mas, como já escrevi um quackilhão de vezes: preciso é navegar. viver, não. como simplificar algo tão plural e complexo como a paixão? os caminhos, desvios e possibilidades são tantos, que nem ovídio – muito menos eu conseguimos quantificá-la e conceituá-la. quando ela é racional, pede-se desculpas, alegra-se, sofre-se pelo outro. mas não se vive em função do outro. nem se mata por sua causa.
ao contrário do que reza a lenda, a globo, a autoajuda, e a indústria da felicidade, a paixão racional parece mais gostosa. é como se a paixão passional corresse pelas veias e a paixão racional, palas artérias. esta não circula mais rápido, mas sim, de maneira mais forte, e é mais vital para a sobrevivência: o corpo morre mais rápido sem ela.
o primeiro tipo alimenta consultórios psicológicos e reproduz neuras de origem não conhecida, gera brigas, estresse, agressões. o segundo dá espaço para rondelli de damasco e pôr-do-sol - do arpoador e do ccbb, não necessariamente o da 408 norte.
[curioso: enquanto escrevia essas besteiras, escutava uma rádio de los angeles em que era insistentemente anunciada a programação especial para o próximo valentine’s day..]
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
russel, o atemporal
esperando por mim
acho que você não percebeu
que o meu sorriso era sincero
sou tão cínico às vezes
o tempo todo
estou tentando me defender
digam o que disseremO mal do século é a solidão
dada um de nós imerso em sua própria arrogância
esperando por um pouco de afeição
hoje não estava nada bem
mas a tempestade me distrai
gosto dos pingos de chuva
dos relâmpagos e dos trovões
hoje à tarde foi um dia bom
saí prá caminhar com meu pai
conversamos sobre coisas da vida
e tivemos um momento de paz
é de noite que tudo faz sentido
no silêncio eu não ouço meus gritos
e o que disserem
meu pai sempre esteve esperando por mim
e o que disserem
minha mãe sempre esteve esperando por mim
e o que disserem
meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
e o que disserem
agora meu filho espera por mim
estamos vivendo
e o que disserem os nossos dias serão para sempre..
acho que você não percebeu
que o meu sorriso era sincero
sou tão cínico às vezes
o tempo todo
estou tentando me defender
digam o que disseremO mal do século é a solidão
dada um de nós imerso em sua própria arrogância
esperando por um pouco de afeição
hoje não estava nada bem
mas a tempestade me distrai
gosto dos pingos de chuva
dos relâmpagos e dos trovões
hoje à tarde foi um dia bom
saí prá caminhar com meu pai
conversamos sobre coisas da vida
e tivemos um momento de paz
é de noite que tudo faz sentido
no silêncio eu não ouço meus gritos
e o que disserem
meu pai sempre esteve esperando por mim
e o que disserem
minha mãe sempre esteve esperando por mim
e o que disserem
meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
e o que disserem
agora meu filho espera por mim
estamos vivendo
e o que disserem os nossos dias serão para sempre..
domingo, 22 de janeiro de 2012
Metrorio – um conto inacabado
o dia estava dos mais complicados: relatório para entregar no trabalho, missão estrangeira na cidade, aumento do aluguel, mil demandas, muito stress, muita confusão. quase não havia tempo de apreciar a belezura da cidade maravilhosa. eu estava mais atrasado que o coelho da alice, e quase perdi o imperdível..
o relógio batia quase 9:30h e eu estava mais de uma hora atrasado. no caminho, nada de novo: o metrô pequeno, mas conservado e eficiente do rio de janeiro. o trajeto? o de sempre: comecei a viagem na simpática estação do cantagalo e, sem grande surpresas, desceria na confusa cinelândia. o futuro do pretérito encaixa-se com perfeição aqui..
ao deixar a reformadinha estação do largo do machado, a mulher subiu no mesmo trem em que estava. e aí, pronto: zupt!! a troca de olhares estilo closer confirmou que eu a conhecia. acredito que não era um estranho para ela. não me lembrava de onde, nem quando, mas sim, já havia cruzado olhares com a ruivinha em reuniões de trabalho, na casa da matriz, no market ipanema ou no crepe do bretão. pouco importava. não tinha intenção de fazer um tratado sobre a moça, nem decifrar suas preferências literárias. pelo menos não naquele momento. quem era ela, o que fazia, o que pensava, onde morava.. para onde ia?! eram questões secundárias. consegui ver, no entanto, o “segundo sexo”, da simone do sartre, escapar de sua pasta e começar a ser devorado. parecia mesmo uma intelctual: apostilas, livros, moleskines, anotações. tudo desorganizadinho na pasta estilosa.
pior é que tava chegando a hora de descer e nada acontecia. como nada? rolou simplesmente tudo naquela troca de olhares [livro-chão-ag-livro-livro]. tudo, menos certeza. típica limitação que instiga a curiosidade e apimenta qualquer aproximação, apesar de não ser mesmo possível definir o que pensava e o que sentia a moça. o flerte continuava. os olhos de um disfarçavam, passeavam pelo ambiente, visitavam outros portos, mas seguiam, invariavelmente, ao encontro do outro. putz, que delícia.
é inevitável, em situações como essa, certa dose de ansiedade. aborda-se? pede-se o telefone? pergunta-se o nome? arrisca-se levar um fora, uma cortada? sem regras pré-definidas, vale recorrer a pessoa para chegar na pessoa: nada é exato, preciso. e quando há verdade, timing e se as energias são boas, a curtição está garantida. no processo. claro que o resultado às vezes surpreende..
apesar de tomado pelos questionamentos, inseguranças e incertezas do tipo, controlei a ansiedade e deixei rolar. estava entorpecido, excitado, animado, curioso. sensacional! parafraseando o poeta argentino: era um grande momento.
nessa hora, percebo que chegou a cinelândia. e ela não desceria ali. aqueles dez ou quinze minutos pareceram uma vida. talvez tenham mudado uma vida. pior é que, devido às minhas referencias cinematográficas, closer não me saía da cabeça..
percebo agora que me esqueci dos óculos e a dor de cabeça já chegou. a ruiva? nunca mais vi. mas é impressionante como essas nanopassagens marcam e tornam-se referência. acho que esse é outro segredo de tostines: a vida é mesmo feita de pequenos e curtos momentos. às vezes, curtos demais.
o relógio batia quase 9:30h e eu estava mais de uma hora atrasado. no caminho, nada de novo: o metrô pequeno, mas conservado e eficiente do rio de janeiro. o trajeto? o de sempre: comecei a viagem na simpática estação do cantagalo e, sem grande surpresas, desceria na confusa cinelândia. o futuro do pretérito encaixa-se com perfeição aqui..
ao deixar a reformadinha estação do largo do machado, a mulher subiu no mesmo trem em que estava. e aí, pronto: zupt!! a troca de olhares estilo closer confirmou que eu a conhecia. acredito que não era um estranho para ela. não me lembrava de onde, nem quando, mas sim, já havia cruzado olhares com a ruivinha em reuniões de trabalho, na casa da matriz, no market ipanema ou no crepe do bretão. pouco importava. não tinha intenção de fazer um tratado sobre a moça, nem decifrar suas preferências literárias. pelo menos não naquele momento. quem era ela, o que fazia, o que pensava, onde morava.. para onde ia?! eram questões secundárias. consegui ver, no entanto, o “segundo sexo”, da simone do sartre, escapar de sua pasta e começar a ser devorado. parecia mesmo uma intelctual: apostilas, livros, moleskines, anotações. tudo desorganizadinho na pasta estilosa.
pior é que tava chegando a hora de descer e nada acontecia. como nada? rolou simplesmente tudo naquela troca de olhares [livro-chão-ag-livro-livro]. tudo, menos certeza. típica limitação que instiga a curiosidade e apimenta qualquer aproximação, apesar de não ser mesmo possível definir o que pensava e o que sentia a moça. o flerte continuava. os olhos de um disfarçavam, passeavam pelo ambiente, visitavam outros portos, mas seguiam, invariavelmente, ao encontro do outro. putz, que delícia.
é inevitável, em situações como essa, certa dose de ansiedade. aborda-se? pede-se o telefone? pergunta-se o nome? arrisca-se levar um fora, uma cortada? sem regras pré-definidas, vale recorrer a pessoa para chegar na pessoa: nada é exato, preciso. e quando há verdade, timing e se as energias são boas, a curtição está garantida. no processo. claro que o resultado às vezes surpreende..
apesar de tomado pelos questionamentos, inseguranças e incertezas do tipo, controlei a ansiedade e deixei rolar. estava entorpecido, excitado, animado, curioso. sensacional! parafraseando o poeta argentino: era um grande momento.
nessa hora, percebo que chegou a cinelândia. e ela não desceria ali. aqueles dez ou quinze minutos pareceram uma vida. talvez tenham mudado uma vida. pior é que, devido às minhas referencias cinematográficas, closer não me saía da cabeça..
percebo agora que me esqueci dos óculos e a dor de cabeça já chegou. a ruiva? nunca mais vi. mas é impressionante como essas nanopassagens marcam e tornam-se referência. acho que esse é outro segredo de tostines: a vida é mesmo feita de pequenos e curtos momentos. às vezes, curtos demais.
domingo, 25 de dezembro de 2011
correio de natal
a guerra das malvinas [ou falklands, como insistem os caras “da ilha”] foi minha primeira incursão no que se transformaria em profissão. eu tinha nove anos, mas esperava o jornal todos os dias para saber o que tinha acontecido no dia anterior. a guerra não reservou grandes surpresas: a poderosa Inglaterra massacrou a Argentina e fez o que a lógica esperava de davi x golias. alguns anos passaram e vi “letters from Vietnam” [bill couturié, 1987]. pra mim, genial libelo sobre aquela guerra, do nível de "full metal jacket" [kubric, também de 1987]. o filme tem uma peculiaridade que humaniza a estória e aproxima o expectador: é todo narrado em off, por meio da leitura de cartas trocadas entre soldados, famílias e namoradas.
há um trecho que retrata a noite de natal de 1972, num ponto do mekong de que não me recordo bem [ainda não instalei internet em minha nova habitação, então, nada de confirmações googlianas]. americanos entrincheirados [e amedrontados, claro; a media de idade das tropas do tio sam era 19 anos..] de um lado, e vietcongs furiosos, eficientes e escondidos, do outro.
o combate comia solto quando, por volta de cinco minutos antes de meia noite, os tiros cessaram. em seguida, artilharia pesada de ambos os lados foi apontada para cima e uma sequência amalucada de tiros foi dada para o alto. um lado metralhava pra cima e o outro respondia da mesma forma, numa sinfonia pacífica bem no coração de uma guerra estúpida, lutada furiosamente por meio-homens e meio-crianças. ali, de forma impensável e não programada, em trincheiras imundas, meninos americanos e vietnamitas, famintos, celebraram o tal do natal.
o que teria feito cessar o ódio que contaminava corações e mentes daqueles povos, ainda que por um breve momento? a celebração de algo que nem é compreendido da mesma forma por cada cultura? que espírito é esse? será que eu nunca fui contaminado por ele?
para entender como é difícil suspender o ódio de alguém que se tenta vencer no campo de batalha, me lembrei logo do igualmente fantástico "the duellists". ridley scott fez essa jóia em 1979, antes de ganhar o mundo com blade runner. no filme, passado na frança napoleônica, dois sujeitos começam a se estranhar por besteira e passam a vida – no caso, mais de 40 anos se enfrentando. a honra de vencer o combate – e derrotar o oponente era bem maior do que os motivos que os levaram a se enfrentar.
recorro também aos ensinamentos milenares de sun tzu, bem resumidos na importância de se conhecer o oponente para vencê-lo. mas na passagem abordada não se trata disso. as duas partes se enfrentavam sem muita razão. americanos, com a patética alegação de conter o perigo do avanço comunista na região; o vietnam, para defender seu território. e naquela noite não havia a intenção vencer o inimigo, mas apenas de lembrar de uma festa que parecia acontecer há anos luz dali.
no dia seguinte, corações e mentes gelaram novamente. o ódio brotou junto com o sol do dia 25 de dezembro e, de uma hora para outra, o combate recomeçou. já escrevi sobre minha incompreensão dos festejos e do espírito natalino. mas a lembrança do filme me remeteu à ideia de que se trata, sim, de um período especial.
é hora de baixar o especial de natal da turma da mônica [década de 70, claro], tomar uma dose de tanqueray em um de meus copos novos e desembrulhar presentes e rancores.
há um trecho que retrata a noite de natal de 1972, num ponto do mekong de que não me recordo bem [ainda não instalei internet em minha nova habitação, então, nada de confirmações googlianas]. americanos entrincheirados [e amedrontados, claro; a media de idade das tropas do tio sam era 19 anos..] de um lado, e vietcongs furiosos, eficientes e escondidos, do outro.
o combate comia solto quando, por volta de cinco minutos antes de meia noite, os tiros cessaram. em seguida, artilharia pesada de ambos os lados foi apontada para cima e uma sequência amalucada de tiros foi dada para o alto. um lado metralhava pra cima e o outro respondia da mesma forma, numa sinfonia pacífica bem no coração de uma guerra estúpida, lutada furiosamente por meio-homens e meio-crianças. ali, de forma impensável e não programada, em trincheiras imundas, meninos americanos e vietnamitas, famintos, celebraram o tal do natal.
o que teria feito cessar o ódio que contaminava corações e mentes daqueles povos, ainda que por um breve momento? a celebração de algo que nem é compreendido da mesma forma por cada cultura? que espírito é esse? será que eu nunca fui contaminado por ele?
para entender como é difícil suspender o ódio de alguém que se tenta vencer no campo de batalha, me lembrei logo do igualmente fantástico "the duellists". ridley scott fez essa jóia em 1979, antes de ganhar o mundo com blade runner. no filme, passado na frança napoleônica, dois sujeitos começam a se estranhar por besteira e passam a vida – no caso, mais de 40 anos se enfrentando. a honra de vencer o combate – e derrotar o oponente era bem maior do que os motivos que os levaram a se enfrentar.
recorro também aos ensinamentos milenares de sun tzu, bem resumidos na importância de se conhecer o oponente para vencê-lo. mas na passagem abordada não se trata disso. as duas partes se enfrentavam sem muita razão. americanos, com a patética alegação de conter o perigo do avanço comunista na região; o vietnam, para defender seu território. e naquela noite não havia a intenção vencer o inimigo, mas apenas de lembrar de uma festa que parecia acontecer há anos luz dali.
no dia seguinte, corações e mentes gelaram novamente. o ódio brotou junto com o sol do dia 25 de dezembro e, de uma hora para outra, o combate recomeçou. já escrevi sobre minha incompreensão dos festejos e do espírito natalino. mas a lembrança do filme me remeteu à ideia de que se trata, sim, de um período especial.
é hora de baixar o especial de natal da turma da mônica [década de 70, claro], tomar uma dose de tanqueray em um de meus copos novos e desembrulhar presentes e rancores.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
juno [ou, tempo de celebrar]
quando assisti juno [jason reitman, 2007], fiquei impressionado. com o talento da moça-com-cara-de-menininha helen page, com a delícia e a sensibilidade da estória – adaptada de obra escrita por uma ex-stripper [atende pela alcunha de diablo cody], sensível e bem mais profunda que a média do estilo; com o talento de michael cera, o desengonçado paulie bleeker. amigo e namorado de juno macguff, ele é “co-responsável” por sua gravidez. pai da coisa que vive em sua barriga, fio condutor da simpática estória.
juno é uma adolescente tipicamente questionadora, lado B. bonitinha, mas rebelde, exerce liderança natural no ambiente previsível da escola. dá trabalho aos pais e inspira atenção típica da idade. não foge à regra. o filme é simples, quase simplório. mas não me lembro de outra película que proponha, de forma tão natural, a discussão sobre tema ainda espinhoso em nossa ainda involuída sociedade: a gravidez adolescente. sempre cercado de tabus e estigmas, ele é abordado no filme de forma tranqüila, sem pressão, sem peso, sem culpa, ainda que bastante factível.
quando vi o filme, fiquei com inveja. que realidade era aquela?! total compreensão com uma gravidez não planejada, não desejada e, obviamente, precoce para os padrões normoides. pai compreensivo, madrasta amiga, colegas companheiros - ainda que naturalmente imaturos, e namoradinho sensível. em que planeta isso? tem de tudo no filme. sem sufocar, sem pesar, passeia-se por temas como políticas contraceptivas, educação sexual e reprodutiva. tendo trabalhado com o tema por tanto tempo, claro que fiquei intrigado..
mas, a partir de reflexão simples, concluo que tenho toda as vantagens de juno: fiz parte de uma turma meio-outsider, original e contestadora e meio-underground; e convivi com não uma, mas duas junos; duas “eles”. L. carioca, cerca de 27 anos, extrovertida, alternativinha e muito tatuada.. foi a primeira referencia no RJ. conheci assim que cheguei. gostos comuns, saímos diversas vezes. l. braziliense, 25, sensível, divertida, refinada, sensual. tornou-se amiga e, até certo ponto, confidente. o intrigante: com ambas, nunca ultrapassamos a fronteira da amizade. pitada de flerte, gotas de sedução, mas amizade acima de tudo.
na mesma brincadeira, lembro-me da amizade recente com o jovem a, dez anos cronológicos mais jovem, diferente em um caminhão de coisas. hoje, referencia profissional e, por que não, amigo de muitas horas.
por todos os paradigmas pulverizados, celebro a diferença. celebro as tatuagens, as origens esquisitas, os gostos idiossincráticos. celebro quem não gosta de the cure e quem não curte beatles. às vezes o universo “Juno” não revela superficialidade, mas a solidez de outro mundo, apenas diferente, meio desconhecido.
juno é uma adolescente tipicamente questionadora, lado B. bonitinha, mas rebelde, exerce liderança natural no ambiente previsível da escola. dá trabalho aos pais e inspira atenção típica da idade. não foge à regra. o filme é simples, quase simplório. mas não me lembro de outra película que proponha, de forma tão natural, a discussão sobre tema ainda espinhoso em nossa ainda involuída sociedade: a gravidez adolescente. sempre cercado de tabus e estigmas, ele é abordado no filme de forma tranqüila, sem pressão, sem peso, sem culpa, ainda que bastante factível.
quando vi o filme, fiquei com inveja. que realidade era aquela?! total compreensão com uma gravidez não planejada, não desejada e, obviamente, precoce para os padrões normoides. pai compreensivo, madrasta amiga, colegas companheiros - ainda que naturalmente imaturos, e namoradinho sensível. em que planeta isso? tem de tudo no filme. sem sufocar, sem pesar, passeia-se por temas como políticas contraceptivas, educação sexual e reprodutiva. tendo trabalhado com o tema por tanto tempo, claro que fiquei intrigado..
mas, a partir de reflexão simples, concluo que tenho toda as vantagens de juno: fiz parte de uma turma meio-outsider, original e contestadora e meio-underground; e convivi com não uma, mas duas junos; duas “eles”. L. carioca, cerca de 27 anos, extrovertida, alternativinha e muito tatuada.. foi a primeira referencia no RJ. conheci assim que cheguei. gostos comuns, saímos diversas vezes. l. braziliense, 25, sensível, divertida, refinada, sensual. tornou-se amiga e, até certo ponto, confidente. o intrigante: com ambas, nunca ultrapassamos a fronteira da amizade. pitada de flerte, gotas de sedução, mas amizade acima de tudo.
na mesma brincadeira, lembro-me da amizade recente com o jovem a, dez anos cronológicos mais jovem, diferente em um caminhão de coisas. hoje, referencia profissional e, por que não, amigo de muitas horas.
por todos os paradigmas pulverizados, celebro a diferença. celebro as tatuagens, as origens esquisitas, os gostos idiossincráticos. celebro quem não gosta de the cure e quem não curte beatles. às vezes o universo “Juno” não revela superficialidade, mas a solidez de outro mundo, apenas diferente, meio desconhecido.
sábado, 26 de novembro de 2011
'stand by me' ludovicense – uma visita
já são 25 anos do verão quente e inesquecível de 1986, na grande são luís do maranhão. o contexto era a explosão da challenger, RPM e cometa halley. eu era um jovem atrapalhadamente tímido e orgulhosamente deslocado, o que reforçava hábitos pouco ortodoxos para um menino residente na beira da praria de uma pacata capital nordestina. um deles, cultivado até o presente, é o de ir ao cinema sozinho. sinto um prazer esquisito, sem explicação [nem tanto], e ainda pouco compreendido, que tem muito menos a ver com solidão do que com individualismo. naquele ano, fui ao cine tropical assistir à estreia de stand by me, atraído pelo roteiro do spielberg, pela música épica de john lennon e, claro, fascinado pelo trailler, assistido um mês antes.
no caminho da casa de minha vó [espécie de “base de operações”] até o cinema, havia um longo [ok, precepção pré-adolecente] terreno baldio que, se não podia ser considerado perigoso, era bem ermo. atravessávamos uns 2 kilômetros de mato, manguezais e estradinhas, para cruzar a segunda metade da ponta do farol [o bairro] e chegar ao cinema, uma das poucas diversões de então, para a juventude dourada da ilha do amor, não a do manezinho. eu tinha 12 anos e até então só havia ido ao cinema com amigos ou com meus pais; nunca sozinho. confesso que ponderei. tinha medo do caminho, não pelos motivos atuais, mais associados à violência gratuita e absurda – queimam-se índios e pais como quem fuma um baseado, mas receio de mim mesmo, de não achar o caminho, de não conseguir, de.. sei lá, medo. naquela época, andar sozinho me fascinava. eu associava liderança, esperteza, traquejo, aos meninos que andavam sozinhos, que iam à escola de ônibus, iam à praia surfar, sem os pais, sem ninguém.
pensei, reli a sinopse do filme: quem era river phoenix?! ah, mas tinha richard dreyfuss, de jaws e close encounters. “grupo de meninos parte em busca de um cadáver em aventura que mudará o curso de suas vidas”, dizia o cartaz. não sei se era apelação marketeira, mas não resisti e fui. e não aconteceu nada demais durante o trajeto. sozinho, a única diferença foi o tempo ter demorado mais a passar, só. chegando ao cinema, porém, me senti importante pra cacete! porra, tinha 12 anos e conseguira chegar ao cinema, a pé, sozinho. estava para completar uma grande aventura. senti excitação, felicidade, vontade de ir a pé a todos os.. trës cinemas da cidade. estava realmente feliz. o filme seria a sagração, o ápice do cumprimento dessa fase, mas apenas um detalhe, se comparado à conquista, àquele sentimento de superação tão relaxante, e que na mocidade é inesquecível. o enredo? aquilo mesmo: após o assassinato brutal de um menino na pequena castle rock, um grupo de amigos parte numa epopeia brancaleonesca em busca do corpo - até então desaparecido. descobrem muito mais.
ter visto a saga de gordie lachance e seus amigos, contudo, representou muito mais, marcou muito mais do que o esperado. foi minha entrada efetiva na adolescência. a partir daquela tarde quente de verão, filmes não seriam os mesmos para mim, e o caminho até o cinema não seria igual – já havia sido conquistado; eu passaria a não mais entender coisas, perceber fatos e pessoas da mesma forma. o efeito bombástico que a história tem na vida dos quatro amigos misturou-se à minha percepção da realidade. tal como lachance nunca mais veria castle rock da mesma forma, são luís havia mudado para mim, em uma tarde..
eu gostava de viver lá, mas a cidade começava, definitivamente, a encolher.
de são luís, fica a lembrança de uma época inesquecível, adolecência tranquila, solta e sem pressões, vivida entre a praia e o mangue. do filme, lembro da personagem de dreyfuss – lachance adulto, dizer que nunca mais teremos amigos como os que tivemos aos 12 anos. não sei se concordo, mas faz sentido. por que atualizar esse texto agora? estranho, mas hoje percebi que brasília começa a parecer menor..
no caminho da casa de minha vó [espécie de “base de operações”] até o cinema, havia um longo [ok, precepção pré-adolecente] terreno baldio que, se não podia ser considerado perigoso, era bem ermo. atravessávamos uns 2 kilômetros de mato, manguezais e estradinhas, para cruzar a segunda metade da ponta do farol [o bairro] e chegar ao cinema, uma das poucas diversões de então, para a juventude dourada da ilha do amor, não a do manezinho. eu tinha 12 anos e até então só havia ido ao cinema com amigos ou com meus pais; nunca sozinho. confesso que ponderei. tinha medo do caminho, não pelos motivos atuais, mais associados à violência gratuita e absurda – queimam-se índios e pais como quem fuma um baseado, mas receio de mim mesmo, de não achar o caminho, de não conseguir, de.. sei lá, medo. naquela época, andar sozinho me fascinava. eu associava liderança, esperteza, traquejo, aos meninos que andavam sozinhos, que iam à escola de ônibus, iam à praia surfar, sem os pais, sem ninguém.
pensei, reli a sinopse do filme: quem era river phoenix?! ah, mas tinha richard dreyfuss, de jaws e close encounters. “grupo de meninos parte em busca de um cadáver em aventura que mudará o curso de suas vidas”, dizia o cartaz. não sei se era apelação marketeira, mas não resisti e fui. e não aconteceu nada demais durante o trajeto. sozinho, a única diferença foi o tempo ter demorado mais a passar, só. chegando ao cinema, porém, me senti importante pra cacete! porra, tinha 12 anos e conseguira chegar ao cinema, a pé, sozinho. estava para completar uma grande aventura. senti excitação, felicidade, vontade de ir a pé a todos os.. trës cinemas da cidade. estava realmente feliz. o filme seria a sagração, o ápice do cumprimento dessa fase, mas apenas um detalhe, se comparado à conquista, àquele sentimento de superação tão relaxante, e que na mocidade é inesquecível. o enredo? aquilo mesmo: após o assassinato brutal de um menino na pequena castle rock, um grupo de amigos parte numa epopeia brancaleonesca em busca do corpo - até então desaparecido. descobrem muito mais.
ter visto a saga de gordie lachance e seus amigos, contudo, representou muito mais, marcou muito mais do que o esperado. foi minha entrada efetiva na adolescência. a partir daquela tarde quente de verão, filmes não seriam os mesmos para mim, e o caminho até o cinema não seria igual – já havia sido conquistado; eu passaria a não mais entender coisas, perceber fatos e pessoas da mesma forma. o efeito bombástico que a história tem na vida dos quatro amigos misturou-se à minha percepção da realidade. tal como lachance nunca mais veria castle rock da mesma forma, são luís havia mudado para mim, em uma tarde..
eu gostava de viver lá, mas a cidade começava, definitivamente, a encolher.
de são luís, fica a lembrança de uma época inesquecível, adolecência tranquila, solta e sem pressões, vivida entre a praia e o mangue. do filme, lembro da personagem de dreyfuss – lachance adulto, dizer que nunca mais teremos amigos como os que tivemos aos 12 anos. não sei se concordo, mas faz sentido. por que atualizar esse texto agora? estranho, mas hoje percebi que brasília começa a parecer menor..
Assinar:
Postagens (Atom)


