terça-feira, 3 de junho de 2014

-- Carvoeiro! --brado com a voz cava e crestada pelo gelo, envolto nas nuvens de fumaça da respiração. -- Por favor, carvoeiro, me dê um pouco de carvão. Meu balde já está tão vazio que posso cavalgar nele. Seja bom. Assim que puder eu pago. "O Cavaleiro do Balde", Franz Kafka. tradução de modesto carone. lembrança de minha monografia apresentada para a matéria "cinema&literatura", na UnB, em 1995.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

.fractais. [ou, uma formatura sem fim]

a fractal is a never-ending pattern. fractals are infinitely complex patterns that are self-similar across different scales. [definição da fractal foundation, entidade americana que tem a missão de despertar, especialmente nos jovens, o interesse por ciência, matemática e arte, a partir da beleza dos fractais]. parece complicado, mas não é. toda repetição de padrões pode ser um fractal.. $$$ aconteceu há mais de 19 anos. mas parece que foi ontem. fui convidado ao jantar de formatura de um grande amigo – por acaso, filho de um ministro do stj. notem: jantar na casa da família, não a bagunça picardílica das festas ou a pateticidade pseudo-revolucionária - das colações. apenas um quadrado, comportado e singelo jantarzinho na casa dos pais do cara, em celebração à sua formatura. fabrizio era um grande amigo. um entusiasta dos arroubos irresponsáveis do ca de porra nenhuma, fundado no calor da perda da eleição para o CArel em 1992. intercambiávamos bebedeiras, festinhas na embaixada da bélgica e a organização de exibições de filmes alternativos. fabrizio formara-se em direito com distinção. o cara é muito inteligente, culto. nossas discussões sempre agregavam, no mínimo, uma informação interessante. além do mais, ele era um entusiasta da nossa rebeldia juvenil. na época eu tinha verdadeiro pavor de eventos ritualísticos, tipo casamentos, festas de formatura e [nem em sonho!!] batizados. mas um jantar na casa de um amigo querido justificava a quebra de resistências. nos organizamos – os três amigos convidados e fomos prestigiar o cara. as “prévias”, à época, eram regadas, pelo menos a álcool. muito bem, lá fomos, como de praxe, ao bom e velho botequim, na 210n [eu ainda frequentava aquela asa]. na saída, prevendo a caretice da recepção, decidimos apimentar um pouquinho a night e.. mandamos ver um lsdzinho. do bom, da gota congelada, que dissolvíamos na vodca ou no gin. chegando lá.. putz!! o ambiente era muito mais formal do que eu esperava, mesmo para uma residência de ministro. móveis de tia-avó, cortinas com muito pano. e tapetes, vários. e o mais assustador: só havia família próxima!! no máximo, 15 pessoas. fodeu! temos de nos ambientar. mas.. acabamos de tomar um ácido! hay que endurecer, pero sin perder la ternura – pensei. o segredo é o controle. tínhamos de manter o controle: das funções cerebrais, da nova ingestão de birita [o pai de fabrizio separou uma garrafa de royal salute, um clássico da época, para nós três], da situação. meus olhos começavam a se rebelar e ir a cantos que eu não conseguia enxergar.. tudo explodia em muitas cores. o copo que eu segurava, a mesinha de centro com a quina lascada, a cara da tia do meu amigo.. que onda! como em toda boa viagem, eu não entendia nada! nem reparei quando o anfitrião sentou-se com a gente. e nessa hora, puff! eu simplesmente “decolei”. lapso total. e o ponteiro pequeno ainda estava no 8!! que época boa: irresponsabilidade gostosa, conseqüências ministráveis. mas foi um dos gaps temporais mais assustadores que já tive. me lembro de voltar ao plano real às 3 da matina, escutando o pai do meu amigo [ele possuía uma primeira graduação em matemática], me congratular: - meu filho, parabéns. há tempos eu não tinha uma conversa tão interessante sobre matemática fractal! as abordagens de alguém tão jovem sobre padrões infinitos me impressionaram bastante! volte mais vezes, vamos conversar mais. [!] eu já havia escutado alguma coisa sobre os fractais. mas no dia seguinte, recuperado e de cara, fui ler um pouco mais sobre o tema. e algumas coisas fizeram muito sentido...

sábado, 22 de junho de 2013

noite de miam miam [ou, modelo e atriz..]

doeu no coração, mas não dependia mais de mim: tinha de deixar mesmo o glorioso rio de janeiro. o Programa da ONU em que trabalhava anunciara fechamento da operação descentralizada, na mesma época em que conheci a mulher com quem juntaria trapos. ela não queria sair de bsb. eu não queria voltar. perdi. após um casamento inesperadamente feliz com a cidade maravilhosa, era hora de voltar pra brasília. paciência. pensei em stalin na rússia pós-Bolchevique: retroceder um pouco para avançar muito algum tempo depois. pop que sou, marquei minha super despedida da cidade com os.. dois grandes amigos que tinha lá: o argentino gênio e a bahiana apimentada. tentei, mas por questão de agenda, não foi possível ir no meu local preferido: a champanharia ovelha negra da rua bambina [ovelhanegra]. sobrou o segundo lugar: o charmoso miam-miam [miam-miam], depois da rua da pasagem, subindo para o Rio Sul. o lugar é super transado: clean, moderno, bem decorado, ícone da cozinha contemporânea carioca e ponto de encontro de artistas e modernosos. tem cardápio bem sortido: pode-se comer de tudo e bem lá. vale muito o salmão gratinado com mascarpone! cheguei cedo para garantir mesa, pois sentar-se no local pode ser tarefa ingrata. como na cidade eu usufruía de um eficiente sistema de transporte publico, não havia a preocupação mediocre com o binômio biritaxdireção. meus amigos já haviam dito que chegariam, juntos, em minutos. decidi ir rápido ao lounge e beber algo enquanto esperava mesa, pois a ideia era jantarmos, todos os três. os dois chegaram e decidiram escolher um drink no balcão. deu preguiça e eu acabaria meu gin no próprio lounge. é, eu ainda tinha saúde / vontade / pique para beber gin. e me divertia assim. pois bem. chega um pequeno grupo com duas mulheres realmente lindas e um ser saltitante e feliz. sentam-se os três à minha frente. pedem os drinks. chegam as bebidas. meus amigos acabavam uma conversa sobre uma baianidade qualquer. ok, posso beber um pouquinho mais. estou no clima. estou bem. acabo o segundo gin e sinto que estou realmente bem.. a ruiva-meio-loira-linda tá na minha frente. seu segundo drink acaba de chegar. pergunto, na lata: - o que é isso? - caipirinha de X [não me lembro mesmo!] - posso provar? – minha cara de pau deve ser patológica. - claro – linda e simpática, aquilo era tão pouco Brasília.. dois goles e adorei. acho que adorei mesmo foi sua atitude. e começamos, os quatro, a trocar impressões sobre a noite, a vida, a PUC-RJ, o coqueirão e londres. - o que vc faz? – eu estava realmente curioso com a menina. - sou atriz. ela tinha olhos esquisitamente verdes/azuis, lindos. eu estava intrigado. mas meu lado escroto é bem mais forte que eu.. - ah, aqui no RJ todas as mulheres dizem que são atrizes. sério, o que vc faz para viver? - ao perceber minha lerdeza e ingenuidade [eu verdadeiramente não a conhecia], ela riu e sinto que começou a curtir a situação.. os dois amigos distancaram-se um pouco e ficamos praticamente a sós no lounge. perguntei sobre algum trabalho dela, para que eu pudesse me situar. - estou na novela das oito. - de que canal? - globo. - me desculpe, não assisto um capítulo de novella há uns 15 anos. - você gosta de cinema? – ah, agora era minha praia, pensei, animado! - sim, adoro. você faz cinema? - sim, estou num filme sobre o presidente. - qual? - o atual, Lula. - ok, mas ainda não vi. - a pré-estreia é só daqui a um mês.. - mas aí fica difícil! - concordo.. ela riu. [agora tinha certeza de que ela estava curtindo a situação..] - bom, você não assiste novela, que é o que tenho feito. - putz, você deve ser famosa [eu já havia sacado isso..] - não sei. acho que famosa, ainda não. sou conhecida. - mas eu não te conheço. - mas você não é um cara muito antenado – o sorriso foi rasgado. - assistir novelas é ser antenado? - haha, não. assistir TV é acompanhar os acontecimentos. assistir novela é relaxar deles.. – filosofou a jovem [adorei]. e você o que faz? - sou oficial de projetos num escritório da ONU aqui no RJ. - legal! você não é daqui? - não. - está gostando do RJ? - pra caralho! - peraí - metralha a jovem. vamos tentar outra coisa. vc conhece cultura pop dos anos 80? - ah, agora vc tá falando a minha língua, babe!! simplesmente, tudo. - lembra do xou da xuxa? - putz.. sim, por que? - eu era paquita. - ah, vai se foder! [juro que falei com muito carinho] - é sério.. - ah que merda, cara.. boa sorte aí na carreira de modelo e atriz – falei com absurdo sarcasmo. ela riu, agradeceu e foi jantar com os amigos. quando vou me juntar aos meus colegas, noto minha amiga baiana morrendo de rir, e me pergunta em baianês fluente: - oxe, o que você e juliana barone tanto conversavam?! ------- para gabi, que me inspirou a escrever esse post.

sábado, 15 de junho de 2013

before midnight

certa vez esbarrarei, confuso e imaturo, num cartaz do finado e saudoso cine márcia, que me chamou atenção. o filme era sobre o encontro casual de dois jovens durante uma mochilada pela europa. entrei e arrisquei. toda a história se passava em uma noite e nesse intervalo, jesse e celine [personagens de ethan hawke e julie delpy] se apaixonavam. roteiro bobo e muito simples, orçamento baixo, poucos atores no cast. a fórmula era imprópria para o sucesso, mas foi certeira para encantar uma geração inteira. verborragia, por vezes, para envolver o expectador na trama do jovem casal. era 1995 e eu tinha os mesmos 22 anos de idade dos protagonistas. talvez isso tenha facilitado identificação imediata com before sunrise. foi a quintessência da fantasia da paixão avassaladora. a fórmula bombástica foi um estrondoso sucesso de crítica. nove anos depois, richard linklater, diretor da primeira película, traz a continuação – before sunset. o mote era tentar explicar [ou, propor uma explicação] o que teria acontecido com o casal depois de Viena. linklater usa o filme para discutir escolhas sérias e difíceis, que acabam por nortear toda a nossa vida. os diálogos amadureceram com os personagens e a ligação entre os dois é adulta, madura. jesse e celine tinham 31 anos e agora as consequências das escolhas machucam ainda mais. na película linklater fez uma ode à maturidade do grande amor. o final do filme revela conexão perfeita entre os dois. mas, apesar da sugestão velada, paira uma dúvida sutil no ar: o que teria acontecido com eles? ficaram juntos? jesse embarcou para NY? ficou em paris? o hiato oficial dura nove anos, até.. linklater assume novamente a direção para dar vida à terceira [e última?] parte da história - before midnight. temos, os personagens e eu, 40, 41 anos de idade. jesse e celine vivem juntos e têm um casal de gêmeas. henry, filho da primeira mulher de jesse, vive com a mãe em NY. o fantasma neurótico da primeira mulher do cara – deixada por ele quando se une à celine em paris, é apenas o gatilho para a grande crise do casal. dessa vez, eles pagam - à prestações - um preço alto pela escolha que fizeram e pela aposta em viver o grande amor. construíram uma vida a dois e, em cima disso, linklater dá um Wasari para mostrar que não existe relação ganha, “acabada”. é até meio piegas, mas o fim é apenas o começo. o odioso “felizes para sempre” é um crime sustentado, herança maldita reproduzida e fortalecida por nossas famílias, escola, amigos, literatura e o caralho. jesse e celine estão de férias na Grécia [locações paradisíacas] e graças a amigos, ficam sem filhos durante uma noite em um hotel de luxo. é durante esse começo de noite que a essência da discussão acontece. jesse e celine têm uma clássica – nem por isso menos dura, realista, cruel e surpreendente discussão. nela, questionam as escolhas que fizeram, desde que se conheceram. repensam a relação, fazem críticas e confissões. o ritmo do filme lembra a segunda parte. mas os diálogos amadureceram, são reflexo de situações, links e referências mais maduros – e complexos entre os personagens. as dúvidas sobre o que teria acontecido em paris, nove anos antes, dissipam-se. as incertezas sobre o futuro do agora casal multiplicam-se. sim, jesse ficou em paris com celine. fez a opção que todos esperavam e pela qual todos torceram. certa vez li que “crescer é a arte de fazer escolhas”.. eu adicionaria: “..e bancá-las”. o filme machuca sólidas crenças, ao vomitar na cara de todos que sim, existe amor. mas ele não é um fim em si mesmo, e se parece com o conceito de felicidade: é muito mais processo que resultado. deve ser vivenciado, inclusive – e especialmente em nano-momentos da vida cotidiana, durante uma escovada de dentes, ou ao assistir o teatrinho da escola do filho. deve ser conquistado dia após dia na relação e o sentimento deve manter nossa atenção plena [vivas ao budismo], para corrigir rumos enquanto implementamos a relação. a vida costuma imitar a arte. e de vez em quando, a arte sugere que a porra da vida é foda. vale a pena, é linda, pode ser até bem feliz. desde que entendamos que o segredo é não glamourizar ou idealizar em excesso, e, o principal: não projetar em ninguém. cada um que leve sua própria bagagem de neuras e coisinhas mal resolvidas. talvez não consigamos resolver cada nódulo psicológico de imediato, mas que tenhamos consciência deles!! e se encontrarmos um/a companheiro/a de jornada – por qualquer intervalo de tempo que dure a relação, ótimo! compartilhemos experiências, crises, esperanças, deleites, prazer, sopas e sushis. relevemos eventuais frustrações provocadas pelas clássicas projeções. amor eterno, traição, exclusivismo, diferenças. tudo é verniz. não é nossa construção desses conceitos que “dá liga” a um encontro romântico, mas nossa capacidade e habilidade para viver a relação. é isso. não se deve tentar perpetuar o encantamento da paixão nem lutar contra a rotina, isso é remar contra a corrente. aprendamos a vivenciar o deleite e a curtição do encontro, nos [às vezes pequenos] espaços que o cotidiano permite. para isso, talvez seja preciso desmistificar de uma vez todas, sim, o amor romântico imediato. assim, temos mais chance de alimentar – e curtir a felicidade plena numa relação de longo prazo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

muito além do obiwan

outro dia paguei uma dívida comigo mesmo: assisti the bridge on the river kwai [david lean, 1957]. é um daqueles clássicos dos quais ouço falar desde criança e que nunca havia tido paciência para sentar a bunda num sofá e assistir. ouvia sempre que se tratava de um “clássico de guerra”, apenas isso. pois bem. o filme é parado, datado e arrastado.. mas memorável. narra a construção de uma ponte [sobre o rio kuwai, no que seria hoje Kitulgala, no Sri Lanka (antigo Ceilão)], por prisioneiros ingleses durante a segunda Guerra. lá, eles sofrem abusos, torturas e humilhações. trabalham de sol a sol e passam fome, num clima de constante tensão física e psicológica, imposta pelos algozes nipônicos. a chegada de um novo grupo de “hóspedes” britânicos – dentre eles, colonel Nicholson ou, sir alec guiness muda a rotina do local. tensões são acirradas e crescem na medida do embate entre Nicholson e saito, o cruel e insensível coronel japonês, que comanda o campo com mãos de ferro. no começo, a disputa é óbvia entre ambos. até o momento em que a relação muda de tom, e surge uma combinação crescente de respeito e admiração mutua entre os comandantes. e aí sobressai o gênio e o talento de sir Alec. nascido em abril do primeiro ano da primeira guerra, em marylebone, londres, guiness estudou no fay Compton studio de arte dramática e estreou nos palcos em 1934. o primeiro papel de destaque veio como herbert pocket, numa versão de great expectations de 1946. a partir daí, guiness começou a chamar atenção, em especial, por sua incrível habilidade de mudar a aparência e incorporar cada papel interpretado. mais ou menos como robert de niro sem as bocas caricatas que desde muito cedo marcaram seus papeis. o apogeu veio como o mestre jedi obi wan Kenobi, em star wars [1977] e sequências. sua versatilidade rendeu-lhe, inclusive, a chance de interpreter uma mulher no esquisito kind hearts and coronets [1949]. foi indicado ao oscar por 6 vezes [incluindo uma como roteirista], das quais levou duas estatuetas: por the bridge.., e como o velho Obi Wan em star wars. ganharia também um oscar honorário em 1980. a classe o talento de guinness seriam vencidos por um cancer no fígado em 2000, encerrando um capítulo elegante do cinema falado. ele teve um filho e trabalhou ativamente por 62 anos. há quem diga que seu título de Sir foi um dos três mais justos do século XX, juntamente com winston churchill e paul macartney. faz sentido. como diria o próprio guinness, no papel de obi wan: "the force is extremely strong in this one".. e era mesmo. pra retomar, tá bom.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

botas de buenos aires ou, da pequena arte de quebrar a cara.

um dos propósitos dessa vida esquisita é o aprendizado. mais especificamente, sobre conceitos cultivados há muito e que considerávamos inquestionáveis. quebrar a cara vira rotina, tomar no cu, padrão. desde a segunda infância, vivemos uma série de experiências que comprovam o pagamento da própria língua. uma amiga poetisa contemporânea brinca: “a vida começa cedo a nos enrabar sem ky”. pois bem. preconceitos perdem o “pré”, e a gente perde o ar superior que carrega desde muito, isso quando não ostenta a opinião como máxima insofismável, espécie de gesso virgem naquele pulso torcido. tento resistir, mas sempre tive alguns preconceitos muito fortes. um deles: associo, desde não sei quando, maturidade à idade cronológica, conceitos, como bem defende um grande amigo, que podem não ter nada em comum. a verdade é que às vezes meu saco de verdades fura e elas escorrem até o ralo.. as botas de buenos aires estão aí para comprovar. experiências fantásticas deixam de ser vividas por medos e receios nada fantásticos. a cereja do bolo está escondida, e temos de cutucar o chantilly para encontrá-la. dois momentos breves, várias barreiras implodidas. a maior delas, para mim, a diferença de idade, foi dizimada. como? fácil: afinidades. muitas, dentro do possível, claro. referências comuns, vivência e experiência encolhem e perdem importância para empatia, timing e cumplicidade. definir? é pra ansiosos. conceituar? é pra preconceituosos. aproveitar? é para sensíveis. seize the day ou, carpe diem, já dizia o keating. o que esperar? nada, esse é o segredo. no momento, dar vazão ao encontro de curiosidades parece interessante. a formação em psicologia revelou mais que o túnel velho de botafogo. o olhinho meio puxado, meio relaxado, meio sem foco [mas com direção] harmonizava com a firmeza dos movimentos, e o controle quase total da cena. sem querer, sem planejar e acho, sem premeditar, os dedinhos finos da mão direita passeavam pelo sofá até reencontrar a bochecha esquerda e rosada, amarrando uma cena que mais parecia um dos filmes legais sobre crises existenciais do woody allen nos anos 1980. a mão.. é sempre um capítulo à parte para qualquer homem sensível com mais de 40 anos. deve haver uns 3 ou 4 vagando por aí.. cinco dedinhos finos e macios massageando o copo.. sim, passamos facilmente do café à heinecken. a espuma dissolveu as desconfianças, e a distância entre um canto e outro da boca foi preenchida por um sorriso mais corajoso. ela já respirava mais relaxada e me olhava nos olhos. a conversa fluía e migramos para o sofá: a confirmação da afinidade, além de dinamitar barreiras, relaxava e dissipava o desconforto do primeiro e inusitado encontro até.. o toque. esqueci propositadamente minha mão na sua coxa. - parece muito a menina do crepúsculo, pensei. – mas também é a cara da nicole kidman. humm.. aquele pedaço de noite evoluiu sem surpresas, mas de forma excitante. o desfecho? que desfecho?! diferente de adso the melk, eu sei o nome da rosa..

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

cantinflas e o políticamente correto

vivo no país do futuro há quase 40 anos e só muito recentemente o Brasil parece ter encontrado o sucesso de seu presente. acostumamo-nos a uma felicidade morna, refletida num sorriso esquisito de canto de boca, misturado com a testa franzida. mas como se mede o valor de um sorriso? desde cedo essas questões têm me provocado reflexão. acredito que a arte de fazer rir é mais séria do que o drama, e me pergunto: será que essa arte tem mudado com o passar dos tempos? sempre tive mais identificação com as angústias humanas, mas não me lembro desde quando sou metido a engraçadinho. sátira e ironia poderiam ser meus sobrenomes e gosto dessa característica, me alimento dela. essa percepção começou com o gosto pelos elegantes filmes mudos de buster keaton, passou pelos geniais e escrachados three stooges até o mestre jerry Lewis. nessa tábula, deveria sentar-se mais um gênio, pouco celebrado: o mexicano fortino mario alfonso moreno reyes [1911-1993] ou, cantinflas. inspirou toda uma escola de fazer rir, e outros gênios, como o próprio jerry lewis. casado por 56 anos com a atriz valentina ivanova, cantinflas fazia rir com um simples revirar de olhos, e com um movimento bobo do rosto provocava o que jim carrey não consegue com todo seu repertório de caretas forçadas. o bigodinho ordinário e o olhar perdido, inocente, reforçavam a persona do camponês simplório e pobretão tantas vezes encarnada por cantinflas. ele era meio que o didi daqueles filmes legais dos anos 70 [quando os trapalhões eram 4 e ainda engraçados]: um fracassado, quase sempre à margem da trama principal, e que passava longe da mocinha. apenas contribuía para que o galã ligasse os pontos e amarrasse a história, que “fechava” bonitinha e equilibrada. mario moreno é pra mim um marco da contracultura hollywoodiana. em LA, fez poucos filmes e nuca foi integrado ao mainstream cinematográfico. ele equilibrava dois mundos aparentemente incompatíveis: vivia sempre o bom moço e ao mesmo tempo, o pária, o lado B. e a simples menção do politicamente correto me cansa.. vivemos num mundo absurdamente contaminado pela culpa – seja ela católica ou não, que tem produzido um exército de deprimidos e tem enriquecido a indústria de medicamentos com prozac, omeprazol, levitra etc. nesse ambiente culpado, sentir graça parece errado. rir parece estranho. e rir de coisa séria é um absurdo passível de pena de morte. minha adolescência foi cinza, mas não sei de que cor seria se eu não tivesse me entupido de angeli, laerte, TV pirata e jerry Lewis. que delícia nos distanciarmos do olho do furacão, olhar para trás e rir de tudo. o que aconteceu com o humor atualmente? num fôlego de criatividade, apareceram CQC e ´pânico na TV´. tudo bem, modernizaram a forma de fazer rir e ambos enfrentam com bravura a ditadura do politicamente correto. são, por isso mesmo, necessários. precisam existir. mas falta algo.. perdeu-se a naturalidade. o dom, antes intrínseco, enferrujou a até o talento parece pasteurizado, fabricado por encomenda. cantinflas teve uma carreira prodigiosa. fez 55 filmes e em alguns deles, também dirigiu, escreveu e cantou. no papel de passepartute no maravilhoso arround the world in 80 days, seu filme mais famoso, encantou gerações e provocou muito riso num contexto bipolar, esquizofrênico e claro, politicamente correto.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Felix catus

essas linhas têm endereço certo e não são para qualquer pessoa. durante meu período no rio de janeiro – meu “into the wild” de estimação, desbravei, descobri, redescobri e confirmei uma uma série de coisas. uma certeza: minha identificação absurda com o universo felino. já escrevi muita besteira, sobre tantas coisas, que era hora de atualizar minha homenagem aos gatos. sempre fui amante dos animais, a ponto de me sensibilizar mais com o bem estar dos bichos, do que com os de nossa espécie. idiossincrasias, esquisitices e excentricidades me aproximaram bem mais dos felinos em geral e dos gatos em particular. convivo com eles desde que era criança pequena em são luís, bem como com uma rinite leve, bem anterior aos gatos. foram vários. curiosamente, quase todas fêmeas.. outro dia me deprimi ao ler matéria sobre um zoológico particular descoberto no interior do paraná: tigres e leões estavam desnutridos e deprimidos, e os especialistas do ibama estimam que eram alimentados com um frango por dia. a dieta recomendável para felinos de grande porte inclui quilos diários de carne crua. michel teló e namatelmintos do tipo enchem o rabo de grana, e são cultuados mundo afora, enquanto tigres passavem fome num zoológico particular escondido? é um mundo tão justo.. espero que aprovem logo a constituição imperial e autocrática que autoriza pena de morte por esquartejamento lento para esse tipo de crime. para ilustrar: em algum ponto distante da minha adolecência, enquanto eu estudava de madrugada [hábito cultivado desde nem sei quando], uma das gatas que criávamos, muito apegada a mim e bastante doente e debilitada, acordou, cambaleou até meus pés, e se deitou para não acordar mais.. optou, por instinto ou sei lá o quê, por fazer isso comigo. aí lembro das subpessoas qua acham que gatos não são capazes de esboçar carinho e que lhes faltaria sensibilidade. putaquepariu, que paciência para essas pessoas!! acredito que gatos têm conexões incompreensíveis com mundos e planos menos compreensíveis ainda. o que poderia assustar alguns, me encanta e me intriga. até charles bukowski escreveu um poema elegante e refinado sobre os gatos. os bichos foram inspiração para animações cinematográficas e uma peça encenada na broadway nada menos que 18 anos consecutivos. a peça foi composta pelo figura andrew lloyd weber, e inspirada num poema de TS Eliot, old possum’s book of practical cats. voltando ao rio. durante os dois anos em que morei na cidade maravilhosa, exerci [ina]bilidades que nem sabia que possuía. morava na cidade mais propícia a relações efêmeras e sexo fácil do brasil. mas, à exceção de umas poucas ciscadas, vivi praticamente recluso e bem. estava feliz, pleno. minhas companhias preferidas foram um argentino cheio de excentricidades, uma bahiana arretada.. e duas gatas – mãe e filha, adotadas diretamente no passeio público, próximo aos arcos da lapa. cariocas da gema, moravam comigo e tornavam a vida em copacabana um pouco mais peluda e muito mais engraçada. hoje, cinco mudanças e muitas aventuras e desventuras depois, maria eduarda e charlotte são a família mais próxima. referências de convívio, de carinho, de bagunça e de diversão. de quebra – ossos do ofício, reforçam excentricidades e esquisitices. foi lá na baía de guanabara que descobri córa rónai. colunista de O Globo, escreve com sensbilidade rara e revela paixão desmedida pelos gatos. na primeira vez em que li sua coluna, ela escrevia sobre como uma de suas várias gatas andou até seus pés e adormeceu pra sempre. identificação imediata!! tempos depois, descobri que cora era mulher de millôr fernandes. hoje, sou seu leitor assumido. necessidade de escovar sempre, aguentar lingua áspera, miados fora do horário, despertadores naturais, universo interminável de pêlos, o fim de roupas sempre limpas, a sensação de ser um hóspede em sua própria casa.. os problemas são plurais e não vale a pena tentar seduzir ao universo felino aqueles que declaradamente não gostam de gatos. porra, quem não gosta de gatos merece.. não gostar de gatos! a sensibilidade ainda tem vez nesse mundo enquanto houver gente naturalmente apaixonada como cora rónai, mariana gogu – e seu blog amalucado, a vera de bsb [dona de um “acervo” de mais de 60 gatos, adotados e bem criados], flávia mattos, thaís braga, macoc, patrícia sávio, meu irmão guto, dentre tantos outros. há, também, gente que se deixa seduzir e conquistar – como o dono do mishima [“o amor em minúscula”] e, claro, a “bonitinha do ceubinho”. a criativa amimação shrek mereceu três continuações, mas o único personagem que teve um filme à parte, claro, foi o gato de botas: antônio bandeiras estava impagável! com os gatos, a vida fica mais gostosa e o domingo, mais alegre. é hora de encerrar, pois charlotte mia insistentemente. acho que não é fome, mas gula por sorvete de café da la basque ou iogurte activia. acostumei-as a um micro-naco de pequenos mimos, de vez em quando. a vida pode ser meio chata quite sometimes e até os gatos merecem um regalo. § § § ps: para todos os apreciadores e apreciadoras do universo enlouquecido dos felinos. ps2: quer sentido na vida? estude filosofia. ps3: gosta de demontrações deselegantes, babonas, dependentes e escandalosas de carinho? crie um cachorro.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

a crueldade do "não a ponto de"..

esse post homenageia MACOC, querida companheira [apesar da percepção térmica tão díspar] de cubículo unesciano no RJ, por quase dois anos. a vida não é precisa como a navegação, e entre um espeço de [des?]construção e outro, há as tais entrelinhas, onde o espetáculo principal por vezes descortina-se. uma das mais interessantes contribuições exógenas à compreensão de um sem número de coisas, pessoas e comportamentos é a implacável teoria do “não a ponto de”. o mecanismo explicaria porquê preferimos tal marca de milho doce, em detrimento da outra, não tão gostosa. explica porquê eu acho Morrissey um excepcional letrista, mas cultuo velvet underground, banda lado B, mais confusa, instável e ruidosa. seu mais simples e cruel exemplo, é a explicação de porquê ficamos com fulana, mas não namoramos com beltrana. por que uma e não outra. pistache ou amêndoa? molho branco ou pomodoro? amendoim ou batatinha para acompanhar a original gelada no amigão? a resposta pode ser muito simples.. morei cerca de dois anos no rio de janeiro. cronologicamente, pouco tempo, mas o suficiente para quebrar a tendência umbilical e irritante de nos apegarmos ao lugar em que nascemos. lá vivi memoráveis experiências, aprendi um caminhão de coisas e é pra lá que pretendo voltar. uma de minhas maiores referências fraternas, mosqueteiro real, certa vez me perguntou por que eu estava mais apegado ao RJ do que à brasília, cidade em que nasci, resido hoje e onde está a maior parte de minha família. gastamos muitos cafés no Ernesto e heineckens por brasília, elocubrando o por quê dessa minha relação com a cidade maravilhosa. eu tentava explicar, ele não entendia. ele argumentava, e não me servia. até que consegui simplificar a explicação por meio de uma lembrança das conversas surreais que mantinha com minha amiga macoc. eu gosto muito de brasília, mas não a ponto de escolher a cidade, por livre e expontânea vontade, para morar. ao menos hoje, prefiro o rio de janeiro a brasília, simples assim. quando penso na teoria eficiente do “não a ponto de”, lembro logo de uma história romântica que vivi na cidade do cristo. apesar de minha opção – e falta autêntica de vontade - por não vivenciar o lado putaria de ser “solteiro no rio de janeiro”, como estava vivo enquanto morei lá, vivi uma ou duas aventurinhas curtas. uma delas teve todos os ingredientes que uma pessoa mais ou menos sã, no alto de seus “trinta e tantos”, espera para viver uma paixão. ela era linda, inteligente, bem sucedida. e sabia cozinhar comida creole de forma divina! por um breve tempo, ocupou um lugar interessante na minha rotina solitária. mas.. por que apenas por um breve tempo? ora, porque sim. por que era tudo muito bom, mas não a ponto de eu namorar com ela? ora, porque sim. vale dizer que o namoro – ou compromissos oficialmente assumidos não fazem parte do meu repertório de merdas mal-resolvidas. simplesmente não tenho problemas com esse tema. acho que a explicação para toda e qualquer escolha que fazemos pode se resumida num simples cálculo, consciente ou inconsciente, de custo benefício. vale a pena matar aula para sair, tomar todas e sacrificar o dia seguinte? no segundo grau, sequer tinha instrumental para fazer a conta. na faculdade, valia sempre 'a pena. na idade adulta, cheia de obrigações “profissionais”, certamente, não. valia a pena ficar com aquela menina? se achasse que sim, ia lá e tentava. e, às vezes, ficava mesmo. vale a pena alucinar na entrevista de emprego e arriscar o resto das fichas na cara de pau? no meu caso, quase sempre funcionou. vale a pena sair da dieta e comer pra caralho na ceia de natal? via de regra, claro! se a pessoa consegue seguir um plano bem montado, se ela tem disciplina, malha, corre, luta ou o caralho, com regularidade, simplesmente vale a pena encher o rabo de rabanada [desculpem o trocadilho]. fato é que não existe regra e cada caso é um caso isolado, diferente. isso tudo pra dizer que se vale a pena, vale a pena, simples assim. é foda sometimes, mas quando se gosta a ponto de, a coisa vale a pena, é assumida e aí, acaba acontecendo. sensacional the sound of arrows. embalou essa viagem blogueira de natal em 2012.

domingo, 16 de dezembro de 2012

once [ou, mini-cântico à solidão]

minha monografia de final de curso [relações internacionais, vale dizer] não foi sobre cooperação internacional, segunda guerra ou construtivismo, temas que adoro estudar, mas sobre a solidão. inspirada em “o cavaleiro do balde”, micro-conto de franz kafka que tivemos de roteirizar para a matéria “cinema&literatura”, tínhamos, também, de escolher um filme que ilustrasse o conto. à época, não consegui escolher um. até 2008, quando assisti once, de john carney. o filme é um libelo maduro, poético, realista, emocionante e completo sobre o [des]encontro entre um músico de rua e uma imigrante do leste europeu, que se conhecem em dublin. o encontro é casual e inevitável. a afinidade vem pela música e pela solidão. a paixão ultrapassou a película e glen hansard e marketa irglova [intérpretes dos protagonistas] apaixonaram-se na vida real e passaram a tocar juntos. chegaram a excursionar pela Europa. a desesperança é sentida nos acordes do violão e nas teclas do piano. dublin é o cenário perfeito para o encontro. obviamente, uma dublin chuvosa, fria e.. solitária. ele vive com o pai e trabalha na loja de conserto de aspiradores da família. ela vende rosas nas ruas para sustentar a mãe que não fala inglês e a filha de um pai ausente que ficou em seu país de origem. o começo da história é batido e sugere um filme batido. tinha tudo para ser mais uma historinha de amor redonda, chata, previsível. ledo engano. a batuta sensível e competente de carney surpreende e revela um filme econômico e sensível, lindo. é pesado com leveza. deveria ser simples e previsível, mas é surpresa. real, crua, dura, mas gostosa de se ver. o encontro rende a gravação de um disco, com músicos recrutados por anúncios em um mural especializado, como as grandes bandas se formam. as figuras são decadentes, mas talentosas e sensíveis. roubam parte das cenas e diluem o impacto da desesperança e da dureza na vida dos protagonistas. lembrei de “commitments”. só que nesse filme há a gordura da fantasia, do lúdico, do bonitinho. em once, tudo é mais real, menos fantasioso e menos cartesiano. o final é um brinde ao cinema de qualidade, uma antítese de frank capra. pegaram beaudelaire, um piano, folk “de raiz” e bateram no liquidificador. o resultado é um suco cheio de caroço, bagaço, pedaços. parece indigesto, mas é lindo. ps: a trilha sonora merece comentário à parte.. obra-prima!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"que lindo, que lindo, que lindo"!!

além dos tradicionais cinco sentidos, especialistas já discutem a existência de nada menos que onze dimensões por meio das quais o ser humano percebe e interage com o mundo à sua volta. os avanços tecnológicos e transformações por que passa a sociedade atual nos estimulam a exercitar esses sentidos. desde dezembro/2011, quando me mudei para o endereço atual, não tenho mais TV. ou melhor, tenho uma coisa para reproduzir filmes, mas nenhum canal de programação, nem mesmo canais abertos. a experiência tem sido interessante.. acho que são estimulados os mesmos sentidos aguçados por LSD ou outras coisas lisérgicas. o desuso da criatividade, a falta de hábito para leitura, a facilidade, agilidade e multiplicidade de mecanismos de comunicação existentes, bem como as comodidades da era contemporânea têm produzido um exército de preguiçosos. pra que atravessar 300 páginas e perder tempo, se é possível escutar um e-book, acessar pelo ipad ou ler uma resenha no google e.. tcham! conhecimento apreendido. para parafrasear um poeta que trabalha comigo, será? não é bem assim. sempre defendi a pena de morte para quem falsifica monografia de conclusão de curso. a viagem mais intensa proporcionada pela ausência do aparelho demoníaco, é a oportunidade de acompanhar futebol.. pelo rádio. isso mesmo. em pleno século XXI, era da informação, da “nuvem” de dados, de ipads, ipods, iquesacos, voltei no tempo e há quase um ano tenho escutado jogos de futebol pelo rádio. no primeiro semestre, o esquisito campeonato carioca. desde julho ou agosto, o brasileirão. e que viagem tem sido!! num primeiro momento, o estranhamento é inevitável, pois são uns 35 anos na frente da TV. e de repente não há mais o estímulo visual.. acho que a lógica parece com o hábito de comer carne. descendente de mineiros que sou, passei os mesmos 35 anos comendo carne/frango todos os dias. parei de repente e é como se nunca houvesse comido. lembro de ter visto the exorcist, dirigido por william friedkin, com uns 14 anos. acho que foi o filme mais aterrador que já vi. alguns anos depois, li o livro, escrito por outro william, o peter blatty. e foi certamente a obra literária mais horripilante que já li.. desde os primeiros ruídos esquisitos que a menina reagan escuta, até a eletrizante sequência final, acho que nunca senti tanto pavor ao ler um livro. blatty consegue criar barulhos quando deve haver barulhos, estimular a imaginação de coisas quando deve haver coisas, e até nos instiga a sentir cheiros.. a experiência é impressionante. Mas voltemos ao futebol. :::: corte para o ano de 1988, na gloriosa conurbação de timbiras [MA]. lembro do pânico de meu pai, enquanto acompanhávamos um vasco e flamengo qualquer dos bons e velhos tempos, quando soprava um arzinho, caíam duas gotas d’água e.. pronto: adeus sinal. na época, havia no maranhão dois canais: globo e bandeirantes, que ainda não era band. mas no fim de mundo chamado timbiras, ao primeiro sinal de chuva, perdíamos o sinal daquele canal. e aí não tinha jeito: ou se arriscava no telhado para tentar um milagre com a antena parabólica, ou apelávamos para o radinho de pilha. e quanta emoção! que delícia esperar pela vinheta “josé carlos araújo”!! atualmente me divirto com cada gol ao escutar pela CBN: “que lindo, que lindo, que lindo, aline”!! nesse caso, aline falcone, eternizada por evaldo josé e deva pascovicci. como o bordão não revela, de cara, o GOL tão esperado de cada jogo, estimula-se ainda mais a imaginação do pobre torcedor. assim, escutar uma partida pelo radio tem sido uma experiência quase metafísica. uma trombada que acaba em espirrada de bola para a lateral parece um petardo desferido em direção ao ângulo do guarda-metas. a cobrança de tiro de meta pode ser uma chance clara de gol. um leve esbarrão entre zagueiro e atacante é um lance que pode aleijar a ambos. pronto, decidi que economizaria 150 reais por mês [em TV a cabo] e voltaria a escutar os exageros da narração via rádio. e tem sido demais! a capacidade de os narradores transformarem um jogo morno numa final disputadíssima é impressionante! tudo fica mais acelerado, mais emocionante, mais disputado. redescubro, assim, um prazer esquecido de acompanhar futebol exatamente quando não “enxergo” mais as partidas. o Brasil é mesmo o país do futebol. talvez seja também o país da imaginação, da criatividade.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

steve austin?

oscar pistorius tem 26 anos e teve as duas pernas amputadas. e daí? ele foi convocado, no dia 04 de julho, para integrar a equipe sul-africana de revezamento 4x400 em Londres. o cara não se classificou para a competição individual, para a qual conseguiu o índice duas vezes, uma delas fora do prazo (a federação sul-africana exige duas marcas), mas conseguiu sua meta, perseguida desde 2008: vai competir nos jogos olímpicos ao lado de atletas sem deficiência. acompanho a carreira de pistorius há dez anos. que seu exemplo sirva de inspiração na superação de adversidades para todos nós. al die hael pistorius!

domingo, 8 de julho de 2012

separações

engraçado. num momento em que celebro uniões e casamentos de entes queridos, resolvi fazer uma ode à separação. ou melhor, resolvi homenagear a separação como parte eventualmente integrante da vida, por meio das palavras do mestre.. ------
When we two are parted [Lord Byron] - When we two parted In silence and tears, Half broken-hearted, To sever for years, Pale grew thy cheek and cold, Colder thy kiss; Truly that hour foretold Sorrow to this. The dew of the morning Sank chill on my brow It felt like the warning Of what I feel now. Thy vows are all broken, And light is thy fame: I hear thy name spoken, And share in its shame. They name thee before me, A knell to mine ear; A shudder comes o'er me Why wert thou so dear? They know not I knew thee, Who knew thee too well: Long, long shall I rue thee Too deeply to tell. In secret we met In silence I grieve That thy heart could forget, Thy spirit deceive. If I should meet thee After long years, How should I greet thee? With silence and tears.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

a dor e o tempo. [mia couto, 2005] primeiro, nenhum sentimento me doía. depois, fui sentindo a dor. agora, dói-me sentir. ser novo é estar longe de tudo e tocar o que se sonha. ter idade é estar perto de tudo e não tocar senão esse turvo espelho: saudades. *antónio emílio leite couto nasceu em Beira em 5 de Julho de 1955 e é talvez o maior escritor moçambicano.

domingo, 24 de junho de 2012

gran torino - ou, o bulldog sensível

há seis ou sete anos escutei de uma pessoa bem querida: - clint eastwood está envelhecendo como um bulldog. assistíamos a bridges of madison county [1995] e o cara ainda parecia meio normal. na hora, nem me sensibilizei. há três dias assisti, durante um cansativo voo internacional, gran torino [2008]. tive um monte de insights, e cheguei a uma conclusão interessante: passados quase 17 anos do primeiro filme, percebi que mr. eastwood havia mesmo envelhecido [e muito!] como um bulldog: enrugado, sisudo, afeto a papeis de velhos turrões, fortes e ranzinzas. com mais de 80 anos, parece um tanque de guerra. mas algo mais acontecera com o velho clint.. o começo de carreira foi em 1959 com a série rawhide. depois, vieram os clássicos westerns spaghetti que o consagrariam como galã misterioso cujo personagem não poderia ter nome mais propício: “the man with no name”. de lá ao cerebral gran torino foram quase 50 anos de uma sólida carreira. ao longo desse tempo, o proceso de brutalização física por que passou eastwood foi simultâneo a sua sensibilização como ator e, especialmente, diretor. o belo the bridges of madison county já revelava que sua mão parecia aço escovado para bater, mas era seda chinesa na direção. como pode? um ator de papeis tão brutos e um diretor de tanta sensibilidade. em 1992, viria o oscar merecido como diretor de the unforgiven. um western, claro. o soco no estômago veio com o impressionante, perturbador, e nauseante mystic river [2003], pra mim, sua mais forte película. na esteira, a million dollar baby [2004], vencedor do oscar e sucesso inquestionável de público e crítica, e letters from iwo jima [2006] poema bélico sobre o embate entre japoneses e americanos na década de 1940. a sequência parece ter pavimentado terreno para a maturidade plena atingida em gran torino. no filme, eastwood é walt kowalski, veterano da guerra da coreia que após a morte da esposa, passa os dias bebendo cerveja na varanda de casa enquanto espera pelo fim. mal humorado, rancoroso, deprimido e, claro, forte como um bulldog, ou um touro. o contato com o mundo real é seu gran torino 1972, que ele nunca dirige, claro. sua rotina patética é alterada pela chegada de novos vizinhos de origem vietnamita. valores são revistos, posturas são questionadas. não de forma tranquila.. afinal, para kowalski, a guerra ainda não acabou: ele maltrata a família, o padre local, e os jovens da vizinhança. mas desenvolve uma relação inesperadamente afetuosa com sue [ahney her] e thao [bee vang], jovens irmãos perseguidos por uma gang de orientais. o filme não poupa estômagos: a história é violenta, cruel, real e.. linda. a dinâmica da relação entre kowalski e tao amolece o coração do bulldog e transforma a vida do moleque. o desenrolar da história a partir desse encontro encurta o caminho para a vida adulta do jovem. o choque de gerações e de culturas entre os dois descortina uma bela amizade. as cenas em que a família de tao reconhece gratidão a Kowalski são as poucas pitadas cômicas da história. o desfecho é um pouco previsível, mas o caminho até ele, nem tanto. há equilíbio na condução da história. o jovem padre janovitch, que antevê a distorção provocada pela aproximação entre Kowalski e tao exerce um papel marcante e conciliador: há uma fossa abissal não apenas entre as duas culturas – oriental e americana, mas entre os dois mundos de Kowalski: equilíbrio e insanidade. essas linhas parecem um pouco atrasadas, mas acho que reconhecem um libelo sobre a diferença e a redenção. e o bulldog sensível acerta mais uma vez..

sexta-feira, 8 de junho de 2012

depois do cubo mágico.

no dia em que passei no vestibular, toda a família ficou muito feliz – bem mais do que eu, pra falar a verdade. havia retornado da atrasada são luís do maranhão, em princípio, a passeio. mas um estranho senso de responsabilidade falou alto e me preparei – inclusive com cursinho no bom e velho objetivo da 904, por 5 meses para o tal vestibular da unb. escolhi o curso na fila da inscrição. passei. mas enquanto todo mundo celebrava a vitória [?!], me sentia estranho. incompreendia aquilo tudo. quanto mais as pessoas me davam parabéns, mais eu estranhava tudo, deslocado. meu tio andré, do alto da sabedoria de quem já havia vivido, apreendido, errado, brilhado e feito mais merdas que eu, metralhou: - tá se sentindo estranho, né, meu filho? aprenda logo: toda conquista é vazia - simples assim. não entendi nada. achei até meio louco.. claro que com 18 anos e a maturidade de um azulejo, não havia como entender mesmo.. os ultimos 21 anos comprovaram que ele estava certo. visão meio pessimista, ok. mas muito acertada. hoje, associo a percepção do andré-tio ao cubo mágico: fantástico e criativo brinquedinho, moda nos anos 80 [claro]. nunca consegui concluir aquela coisinha colorida e bagunçada, com quadradinhos geometricamente dispostos. mas sempre pensava: - porra, e depois de acabar o cubo mágico, qual a graça da brincadeira? já naquela época comecei a deconfiar que o atingimento de um resultado – por mais esperado, é algo solitário, e meio vazio.. a maxima clássica e batida de que o melhor da festa é esperar por ela. e é isso mesmo. o processo é tão ou mais importante que o resultado, que o impacto atingido. mesmo no meu meio profissional, da implementação de projetos de cooperação, percebe-se facilmente a importância de construir estratégia, e elencar atividades, estimar e detalhar um orçamento, associar objetivos às atividades, definir indicadores para se chegar ao tal resultado esperado. só se consegue uma mudanç estrutural significativa se cada subetapa for planejada e priorizada a seu tempo. uma vez mais, associo o segredo das grandes descobertas e das coisas mais importantes da vida a pequenos ganhos, às micro felicidades que vivemos.. ao trivial sensacional. esse conceito merece um momento. somos criados e condicionados a esperar da vida não menos que o sensacional. meninas são princesas, meninos são soldados, guerreiros. todos serão vitoriosos e terão uma vida de êxitos e vitórias, bons empregos, felicidade, felicidade nos casamentos.. my ass! por essa visão deturpada, distorcida e limitada, resiste-se em admitir a possibilidade de um somatório de pequenas histórias românticas por meio das quais construiríamos a experiência para, dentre outros, vivenciar melhor um grande amor. não, só admitimos a existência de grandes e avassalores amores, ou melhor, de um único agrande amor. somos treinados para acreditar nisso. porra, se essa é a verdade absoluta, claro que qualquer “desvio padrão” da rota pré-concebida de felicidade, significa frustração e infelicidade. associamos logo a separação a algo trágico, sofrido [do contrario , não havia amor..]. a sociedade não compreende a possibilidade de alguém sair, não feliz, mas sereno, tranquilo e, o mais importante: agradecido de uma relação – vivida e vivenciada com devoção, verdade e, por que não, paixão ou mesmo amor romântico. é perigoso associar cada período da vida a uma conquista futura, claro! assim que atingida a conquista, ela tende a nos levar à frustração, após breve momento de prazer e curtição. se não atingida, muito pior: machuca profundamente, e seus efeitos são sentidos na derme. depois de escalar uma montanha bem alta, resta apenas olhar para baixo e ver cada etapa conquistada. lembrar de cada acampamento, de cada cilindro de oxigênio consumido. rever cada fase percorrida. não se pode ignorar a sensação de conquista, e o prazer que vem dela, claro. mas esse deleite está dentro de cada um, é permeado pela subjetividade e não pode ser exogenamente projetado. a delicia da conquista é simétrica à dor: do tamanho de cada um ou, da maneira como cada um percebe essa conquista, ou sofre essa dor. Independente da crença, temos um compromisso moral, pessoal e talvez espiritual de buscar felicidade. não epidérmica, estética, passageira, condicionada, mas sim, plena.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

protozoário, o injustiçado

prólogo. já é inverno em bsb, e hoje o dia começou esquizofrenicamente gostoso: cinza, frio e meio chuvoso. mas depois das 14h o sol saiu, as nuvens fugiram e, como dizia o sábio marcelo nova, “o ponteiro subiu”. tava quente. eu saía de um almoço gostoso com velhos amigos no velho corporate centre, digo, center. setor comercial norte da gloriosa brasília. era hora de pegar meu carro, estacionado em uma vaga regularmente concebida para esse fim. mas, de repente, percebo um carro parado na frente do meu. desenvolvimento. acho que por um momento, minha pressão, que é 11 por 7 há vinte anos, foi a 13 por 8. olho para um lado: ninguém. olho para o outro: ninguém. penso, por um momento: - saco, sem tempo, com preguiça, sonolento e de barriga cheia, vou ter que empurrar a porra do carro!! putaquepariu, que saco!!! isso nunca aconteceria na alemanha, como diria meu amigo cujo apelido é.. alemanha. aliás, colocando o politicamente correto em seu lugar [a putaquepariu], entendo que o ocorrido teria espaço em são luís do maranhão, onde morei; em goiânia, onde prefiro nunca morar; no rio de janeiro, onde quero voltar a morar. mas é triste ver isso acontecer em brasília. pois bem. na frança do século xviii, era moda usar paletó, colete, camisa e calça feitos com diferentes tecidos, padrões e cores: era o embrião do terno, hoje mundialmente difundido. naquela época, o terno tinha corte largo e era utilizado como peça informal de vestuário, conhecido como "roupa de descanso". essa vestimenta falida, estúpida, resquício de uma época falida e igualmente estúpida, piora tudo. por causa dele, ou melhor, do nó da gravata [acredita-se que essa tenha surgido na corte de luís xiv], meu sangue tem mais dificuldade para circular, minhas artérias comprimem-se, minhas sinapses ficam ainda mais lentas. mas, voltando ao carro: teria de ser empurrado. arregaço minhas mangas e começo a empurrar. nada. não sou um modelo de átila, mas estava empurrando com força. nada. aí, por um segundo, passa um flash na minha cabeça.. frio na barriga. resolvo olhar dentro do veículo e, pimba!! freio de mão puxado. cheguei a 15 por 9, imagino. não posso morrer por causa de um[a] filha da puta que não tem a menor vocação para a vida em sociedade. lembro-me de que não paro em fila dupla nem pra comprar pão. e a gente costuma esperar em retorno o que fazemos para as pessoas.. ah, foda-se. já tava mais que puto. ainda rola um olhar perdido para vários lados. nada. buzino, por via das dúvidas. nada. caminho até os flanelinhas e pergunto se alguém está “tomando conta” de um veículo x, placa tal. cara de conteúdo. nada. ninguém. calma, calma. a pressão! resolvo andar até a recepção do prédio comercial [o estacionamento é em frente] e perguntar, por via das dúvidas. nada. – o senhor tem de perguntar ao flanelinha, eles costumam ficar com as chaves de alguns veículos. - mas eu já conversei com eles e nada. nada.. hora de desabotoar o primeiro botão da camisa e afrouxar o nó da gravata. eu quase me rendo. resolvo entrar novamente no prédio e tomar um café. quem sabe nesse meio termo algo legal acontece? a essa altura, desejei de coração a chance de deixar para a pessoa a mesma alegria que ela me deixou. com o expresso na cabeça, volto à romaria. decido falar com flanelinhas do próximo estacionamento, uns 500m adiante. quando estou chegando, olho pra trás: o carro estava saindo. o carro estava saindo!! eu tinha de fazer algo, pelo menos olhar o[a] verme nos olhos e.. sei lá. precisava disso. corri em direção a uma das duas saídas [arrisquei a mais provável..] para interceptá-lo[a], mas o carro seguiu a direção oposta. putaquepariu. consegui ver uma loira-que-não-nasceu-loira muito perua.. lembrei, uma vez mais, do michael douglas em falling down. que bom que não estou armado! mantive a calma. viva as aulas de yoga. conclusão
. me pergunto, afinal: por que o pobre protozoário só tem direito a uma célula enquanto há seres que têm uma coleção, mas não sabem o que fazer com elas?

segunda-feira, 14 de maio de 2012

homenagem de lenore fleicher, autora de rain man, aos gatos. genial.
When God made the world, He chose to put animals in it, and decided to give each whatever it wanted. All the animals formed a long line before His throne, and the cat quietly went to the end of the line. To the elephant and the bear He gave strength, To the rabbit and the deer, swiftness; To the owl, the ability to see at night, To the birds and the butterflies, great beauty; To the fox, cunning; To the monkey, intelligence; To the dog, loyalty; To the lion, courage; To the otter, playfulness. And all these were things the animals begged of God. At last he came to the end of the line, and there sat the little cat, waiting patiently. "What will YOU have?" God asked the cat. The cat shrugged modestly. "Oh, whatever scraps you have left over. I don't mind." "But I'm God. I have everything left over." "Then I'll have a little of everything, please." And God gave a great shout of laughter at the cleverness of this small animal, and gave the cat everything he asked for, adding grace and elegance and, only for him, a gentle purr that would always attract humans and assure him a warm and comfortable home. But he took away his false modesty.
Lenore Fleischer

quarta-feira, 9 de maio de 2012

esse menino sabia das coisas. -------- songs of innocence william blake (1757-1827) piping down the valleys wild, piping songs of peasant glee, on a cloud I saw a child, and he, laughing, said to me: 'pipe a song about a lamb!' so I piped with merry cheer. 'piper, pipe that song again;' so I piped: he wept to hear. 'drop thy pipe, thy happy pipe; sing thy songs of happy cheer!' so I sang the same again, while he wept with joy to hear. 'piper, sit thee down and write in a book, that all may read.' so he vanished from my sight; and I plucked a hollow reed, and I made a rural pen, and I stain'd the water clear, and I wrote my happy songs every child may joy to hear.

terça-feira, 1 de maio de 2012

gatos

essas linhas têm endereço certo e não são para qualquer pessoa. durante meu período no rio de janeiro, desbravei, descobri, redescobri e confirmei uma uma série de coisas. uma certeza: minha identificação absurda com o universo felino. a esse respeito, chego a não acreditar como já escrevi tanta besteira, sobre tanta coisa e ainda não tinha rendido homenagem aos gatos. sempre fui amante dos animais, a ponto de me sensibilizar mais com o bem estar dos bichos, do que com o de nossa espécie. idiossincrasias, esquisitices e excentricidades me aproximaram bem mais dos felinos em geral e dos gatos em particular. convivo com eles desde que era criança pequena em são luís, bem como com uma rinite leve, bem anterior aos gatos. foram vários. curiosamente, quase todas fêmeas.. minha identificação é tanta, que outro dia me deprimi ao ler matéria sobre um zoológico particular descoberto no interior do paraná: tigres e leões estavam desnutridos e deprimidos, e os especialistas do ibama estimam que eram alimentados com um frango por dia. a dieta recomendável para felinos de grande porte inclui quilos diários de carne crua. para ilustrar: em algum ponto distante da minha adolecência, enquanto eu estudava [hábito cultivado desde nem sei quando], uma das gatas que criávamos, bastante doente e debilitada, acordou, cambaleou até meus pés, e se deitou para dar o ultimo suspiro de vida comigo.. aí lembro das subpessoas qua acham que gatos não são capazes de esboçar carinho e que lhes fala sensibilidade. putaquepariu, que paciência para essas pessoas!! acredito que gatos têm conexões incompreensíveis com mundos e planos menos compreensíveis ainda. o que poderia assustar alguns, me encanta e me intriga. até charles bukowski escreveu um poema elegante e refinado sobre os gatos. voltando ao rio. durante os dois anos em que morei na cidade maravilhosa, exerci [ina]bilidades que nem sabia que possuía. morava na cidade mais propícia a relações efêmeras e sexo fácil do brasil. mas, à exceção de uma relação relâmpago e umas poucas ciscadas, vivi praticamente recluso e bem. estava feliz, pleno. minhas companhias preferidas eram um argentino excêntrico, uma bahiana arretada.. e duas gatas – mãe e filha, adotadas diretamente no passeio público, próximo aos arcos da lapa. cariocas da gema. moravam comigo e tornavam a vida em copacabana um pouco mais peluda e muito mais engraçada. hoje, cinco mudanças e muitas aventuras e desventuras depois, maria eduarda e charlotte são a família mais próxima. referência de convívio, de carinho, de bagunça e de diversão. foi lá na baía de guanabara que descobri córa rónai. colunista de O Globo, escreve com sensbilidade rara e revela paixão desmedida pelos gatos. na primeira vez em que li sua coluna, ela escrevia sobre como uma de suas várias gatas andou até seus pés e adormeceu pra sempre. identificação imediata!! tempos depois, descobri que cora era mulher de millôr fernandes. necesidade de escovar sempre, aguentar lingua áspera, miados fora do horário, despertadores naturais, universo interminável de pêlos, o fim de roupas sempre limpas.. não vale a pena tentar seduzir ao universo felino aqueles que declaradamente não gostam de gatos. porra, quem não gosta de gatos merece.. não gostar de gatos! a sensibilidade ainda tem vez nesse mundo enquanto houver gente naturalmente apaixonada como cora rónai, mariana gogu – e seu blog amalucado, a vera de bsb [dona de um “acervo” de mais de 60 gatos, adotados e bem criados], o pessoal da SUIPA, flávia mattos, thaís braga, patrícia sávio, dentre tantos outros. e gente que se deixa seduzir e conquistar – como o dono do mishima [“o amor em minúscula”], e, claro, a “bonitinha do ceubinho”. a criativa amimação shrek mereceu três continuações, mas o único personagem que teve um filme à parte, claro, foi o gato de botas: antônio bandeiras estava impagável! com os gatos, a vida fica mais gostosa e o domingo, mais alegre. é hora de encerrar, pois charlotte mia insistentemente. acho que não é fome, mas gula por sorvete de café ou iogurte. acostumei-as a um micro-naco de um ou de outro, de vez em quando. a vida pode ser meio chata quite sometimes e até os gatos merecem um regalo. § § § ps: para todos os apreciadores e apreciadoras do universo enlouquecido dos gatos.